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II) O Clube do Sargento da Armada… por Virgílio Castanheira da Fonseca

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Começo esta minha asserção ao nosso Clube, pondo em evidência uma contradição que se constata na Marinha de Guerra, desde a Monarquia até ao século XX: por um lado, de entre os ramos das Forças Armadas, a Marinha sempre foi a mais conservadora, mas, por outro, sempre soube decidir nos momentos cruciais da nossa história.

E exemplos do afirmado não escasseiam: implantação da República, concentração da Rotunda, massacre dos marinheiros no Rato, revolta dos Sargentos no 31 de Janeiro no Porto e, mais recentemente, a participação no 25 de Abril de 1974, com um empenhamento total.

O aspecto mais conservador revela-se ao nível do ingresso na Marinha, tendo aqui a hierarquia uma influência determinante (aquilo que eu designo, “a entrada na Marinha pela porta grande”). A linhagem familiar e e as características do estrato social ligado às actividades marítimas, estabeleceram relações sociais de poder, pelo que quem entrava na Antiga Escola Naval, era seleccionado, sobretudo, pelo nome de família e pelo poder político vigente.

Assim sendo, todo o poder estava concentrado nos oficiais do Estado- Maior e, por conseguinte, transmitido à cadeia de comando até ao guarda-marinha. Os sargentos e praças que entraram para a Marinha pela “porta pequena” sempre foram considerados como “raça inferior”, mesmo que, durante a sua vida na Marinha, obtivessem cursos superiores nas Universidades Técnicas ou Clássicas.

Apesar destes factos, há que reconhecer um aspecto que a priori parece contraditório, não obstante ser real: as relações sociais de funcionamento da vida a bordo dos navios, quer pelas limitações de espaço, quer, também, por cada elemento ter uma função específica, criou uma aparente relação democrática que, em momentos críticos da nossa história, se concretizou em união e participação relevante nos destinos do nosso país.

Este paradigma de relações sociais sofreria, porém, uma ruptura com o 25 de Abril, dando lugar às relações sociais existentes no século XXI, mas que, no que concerne à Marinha de Guerra Portuguesa, não são assim tão lineares como podem parecer.

A capacidade associativa dos Sargentos, já vem da Monarquia com a criação da Fraternidade Naval, estrutura que financiava, nomeadamente, os encargos com os funerais dos sargentos e seus familiares.

O associativismo esteve sempre presente na classe dos sargentos, não só pelo estigma criado pelas “elites”, mas, também, pelo fortalecimento como classe, para atingir os desígnios no que concerne ao respeito, idoneidade e prestígio que todo o ser humano pretende alcançar.

A luta travada durante o século XX revestiu-se de várias formas:

a)      Resistência à política do Estado Novo, nomeadamente, durante a guerra nas ex-colónias, com os pedidos de saída da Marinha não autorizados, seguidos de deserção para o estrangeiro de

b)      técnicos especializados;

c)       Com a abertura marcelista geram-se movimentações de carácter profissional e de classe, que reivindicam, entre outros, a entrada nas Unidades Militares em traje civil, cursos de habilitações

d)      literárias de formação em português e matemática para candidatos ao Curso Geral de Sargentos e aumentos salariais;

e)      No que diz respeito à reivindicação do traje na entrada das unidades militares, alguns comandos mais sensíveis foram autorizando que os sargentos fossem entrando com o uniforme de trabalho e, mais tarde, em traje civil. Esta prática concretizou-se  com a utilização de uma dependência próxima da Escola de Vila Franca de Xira, pagando uma pequena importância, ao senhor “Zé da Lenha”, dono da taberna junto da Escola;

f)       Pressionado – era uma vergonha os sargentos terem que pagar para mudar de fato – o comando alugou dois andares no bairro próximo da escola, deixando os sargentos de pagar aquele aluguer, mas continuaram a ser discriminados;

g)      A luta generalizou-se e o conservadorismo cedeu: já antes do 25 de Abril de 1974 os sargentos podiam entrar em trajes civis, primeiro nas unidades em terra e depois em todas as unidades

h)      de Marinha. Não obstante estas cedências por parte da hierarquia, não foi possível convencer o Chefe do Estado-Maior da Armada, depois de algumas reuniões solicitadas por vários grupos de sargentos, a autorizar a criação do Clube dos Sargentos, reivindicação antiga dos sargentos que tanto ansiavam pela sua fundação.

São estes factos, em traços gerais que descrevem a situação até ao 25 de Abril de 1974 vivida pelo autor destas singelas linhas. Claro que a explosão social agudiza todas as contradições que foram acumuladas durante 48 anos, e a classe dos sargentos não foi imune a todos os fenómenos gerados pelos aspectos contraditórios da sociedade, em geral, e da Marinha de Guerra, em particular.

Assim sendo, logo, no dia 29 de Abril de 1974 com representações de várias unidades, teve lugar um encontro de muitos sargentos na Base Naval de Lisboa, Alfeite, tendo sido deliberado, democraticamente, a fundação do Clube e nomeada, imediatamente, uma Comissão

encarregada de encontrar um local para a sua sede.

Concomitantemente àquela acção, estabeleceram-se contactos com as autoridades civis e militares, tendo-se ocupado as instalações da antiga “União Nacional”, no Largo da Misericórdia, em Lisboa. Nestas instalações provisórias também partilhada com uma comissão liquidatária dos bens da antiga União Nacional, deu-se início à aprovação dos estatutos e à eleição dos Órgãos Sociais, a Mesa da Assembleia Geral, Conselho Fiscal e Direcção.

Empossada a primeira Direcção, em contactos com o Chefe do Estado-Maior da Armada, através do seu Chefe de Gabinete, foi acordado que não seria uma ocupação selvagem, havendo a pagar uma renda pela utilização do espaço. Em conversações directas com o senhorio, tudo ficou regularizado e nada mais se poderia esperar do carácter e honestidade dos Sargentos da Armada.

Para a consolidação das estruturas, quero pôr em evidência o trabalho desenvolvido pelo primeiro presidente do CSA, Sargento Artur Lopes Ribeiro, pela sua capacidade organizativa, pelo seu espírito associativo e, como é óbvio, com a participação abnegada de todos os elementos dos órgãos sociais e dos seus familiares. Era fundamental a participação efectiva de todos os elementos.

Para o efeito foram criadas comissões com tarefas específicas, tais como organização e classificação dos livros doados para a Biblioteca, aquisição de equipamento para o Restaurante, instalação de telefones, equipamentos para o Bar, etc.

Começar tudo da “estaca zero”, como na gíria se diz, foi uma obra quase ciclópica. De um momento para outro, todos participámos na  “construção da nave e pô-la a navegar em velocidade de cruzeiro”, foi uma obra extremamente notável de todos os sargentos (sim, de todos

os Sargentos!). Era evidente a satisfação, o empenho, a vontade, o querer, a entrega dos Sargentos em todas as actividades dinamizadas e levadas à prática pela primeira Direcção.

Apesar de só ter nomeado o presidente desta primeira Direcção, porém, quero destacar todos, mas todos os elementos daqueles Órgãos Sociais que deram o seu melhor, até com prejuízo dos seus familiares.

A “Nave seguia o seu rumo, já a navegar em velocidade de cruzeiro”, dando cumprimento aos seus estatutos, quando se deu posse à segunda Direcção. Todas as pessoas são diferentes e o segundo presidente, embora seguindo a matriz da anterior Direcção da qual tinha pertencido, tentou e conseguiu aperfeiçoar o funcionamento dos serviços prestados, por um lado e, por outro, criar novas valências que viessem ao encontro das solicitações e ambição dos sócios.

Em cumprimento dos estatutos e, por vontade dos sargentos, em geral, o seu presidente sargento Virgílio Fonseca, baseado num modelo financeiro, lançou as bases de um empréstimo de 5.000$00 (cinco mil escudos) por cada associado, para a aquisição de um espaço para a instalação de uma Sucursal na Margem Sul. O sucesso desta campanha foi tal, que o empréstimo, em mais de noventa e cinco por cento, se transformou em doação, tendo, mais tarde, na terceira Direcção, sido efectuada a aquisição de magníficas instalações, na margem Sul.

O sucesso, repito, não foi só da Direcção ou dos Órgãos Sociais, mas de todos os Sargentos e seus familiares que desistiram de beneficiar deste rendimento, para fazerem uma aplicação de longo prazo numa obra por que esperaram tantos anos para a verem concretizado.

Mesmo já “navegando em velocidade de cruzeiro” (gosto de usar esta metáfora), a Direcção tinha que continuar a dar o seu melhor na organização das actividades culturais, criando para o efeito subcomissões para desporto, actividades lúdicas, cultura, animação, pesca desportiva, campismo e caravanismo, colóquios sobre música, associativismo, astronomia, literatura, especialidades técnicas da Marinha, etc.

Foi um momento histórico de grande participação, motivação e unidade dos sargentos da Marinha. Não havia cansaço ou fraquezas de ânimo, todos davam o seu melhor em prol do nosso Clube, e tanto esforço foi compensado com a consolidação do mesmo.

Ainda nesta Direcção foram entabuladas negociações com o senhorio, para a aquisição do espaço arrendado. Porém, o senhorio faleceu e os herdeiros nunca quiseram restabelecer as negociações

e tudo se gorou, tendo o CSA, num mandato posterior, sido obrigado a entregar as chaves aos novos proprietários, por decisão do tribunal.

Ainda durante este mandato e dando seguimento à matriz da Direcção anterior, o CSA continuou a fazer-se representar junto das Marinhas estrangeira (Brasil, Itália, Reino Unido, França, Alemanha,

Estados Unidos, Canadá, etc.), oferecendo as nossas instalações e serviços, e, posteriormente, em resposta a convites dos Sargentos desses navios, enviando representações do Clube a essas confraternizações.

Considero uma época de ouro no que concerne às actividades desenvolvidas, no empenho, na abnegação, no sacrifício, de todos os sargentos, nomeadamente os ligados aos Órgãos Sociais. Que me perdoem os vivos por não mencionar os seus nomes, mas não podia deixar de expressar o meu agradecimento, o meu profundo pesar e respeito à memória, por já nos terem deixado, aos tesoureiros da primeira e segunda Direcção, Sargento Claro e Sargento Duarte, respectivamente,

e suas famílias. Para todos os outros que já partiram e nos deixaram, para eles, também, o mesmo sentido de respeito e pesar.